Cultura

Ciência para a Sociedade

A Ciência foi um dos principais fatores que fez a Humanidade ingressar na Modernidade. Com a adoção da cultura da lógica e da racionalidade para produzir os conhecimentos necessários à superação das violências e misérias do mundo – tarefa que ainda está em construção – a humanidade começou a experimentar a possibilidade de encontrar soluções mais adequadas à natureza humana, diversa, plural e solidária, como ainda há sinais nas comunidades e famílias.

Antes, na Idade Média, a “Idade das Trevas”, as soluções eram projetadas de cima para baixo com a imposição de valores, costumes e condições econômicas de uns sobre outros, sobretudo pela violência e humilhação. A crítica dos renascentistas e iluministas era principalmente dirigida ao atraso da humanidade provocado pela combinação da negação da ciência para a Sociedade com a adoção do dogmatismo(supostas verdades absolutas), como sustentação política e econômica.

A referência à “Trevas”, vem desta condição de não poder haver questionamentos, de não poder se esclarecer o público, a Sociedade. Daí um período de muitos conflitos e guerras – toda guerra obscurece a melhor solução. Assim vivemos as tragédias da Expansão Mongol, a Guerra dos Cem Anos e as Cruzadas.  Também foram tempos de perseguições às “bruxas”, que dominavam a química. De execução sumária de pesquisadores como Giordano Bruno, pela Inquisição, por ter afirmado e demonstrado matematicamente que a Terra é redonda e que é ela que gira em torno do Sol e não o contrário como a Igreja hegemônica afirmava. Exemplo de estratégias vivas até hoje.

Ora, se quem toma decisões que afetam a Sociedade não precisa se explicar, jamais se terá garantia que a decisão beneficiará o público, ou apenas reproduzirá o poder do decisor. Curioso é que estudos científicos posteriores revelaram que não se tratava de uma “negação” da ciência. Usavam a teologia para tornar suas decisões inquestionáveis pelos “de baixo”, mas para que se desenvolvesse às Grandes Navegações, muito investimento foi feito em elevadíssimo nível de conhecimento científico de engenharia naval, astronomia e gestão estratégica(diplomática e militar), entre outros. Uma manipulação para que o conhecimento, principal fonte do poder, não fosse acessível a outros, como está descrito no filme “O nome da Rosa”(1986), de Umberto Eco, imperdível.

Daí não ter sido por acaso que na Idade Média é que iniciou a criação das universidades, embora controladas pelos mosteiros; que se registra importantes avanços na agricultura, técnicas militares e, com especial destaque para a arquitetura e engenharia demonstradas na construção de catedrais góticas e no crescimento das cidades e do comércio.

O que ninguém consegue demonstrar diferente, em todos os tempos, é que as “Trevas” se afirmaram para o exercício da dominação pela força entre minorias abastadas e maiorias sem informação e conhecimentos. O obscurantismo é o que sustenta o poder tirânico, até hoje. Assim ensina a História, ciência das ciências.

A lição que precisamos resgatar é que o sonho de uma Humanidade que se reproduza a partir da liberdade, da Justiça e das melhores realizações para o benefício de todos e todas, está alicerçado sobre dois pontos que têm se demonstrado à exaustão, e à exaustão tem sido sonegado à maioria: o papel do conhecimento, tanto o científico como os saberes coletivos, para o exercício do poder, pleno de liberdade como condição social. E, o reconhecimento da pluralidade da natureza humana que exige uma inteligência democrática e solidária. Aliás, como prescreve a Constituição Federal em seu art 3º.

Portanto, na construção de uma cultura, aquilo que cultuamos e cultivamos juntos no cotidiano do nosso lugar, que torne a Sociedade qualificada para a realização humana em toda a sua riqueza, demanda uma produção de conhecimento científico – compreendida como uma prática de pesquisa, elaboração e formação – com ética, socialmente comprometida e orientada à transformação da realidade do conjunto da Sociedade no sentido da melhoria das condições de vida em todas as suas dimensões.

Na metodologia científica a Teoria é a realidade prática pensada, abstraída para uma elaboração que torna visível o que só o conhecimento nos torna capaz de enxergar. Costumo brincar com os colegas dizendo que ninguém consegue enxergar os elétrons, a eletricidade. Mas se tiver dúvidas sobre sua existência, que é uma Teoria, é só meter os dedos em uma tomada…

O choque de realidade que é a Teoria proporciona deixar claro que ela não é uma opinião, ela é uma percepção humana lógica e racional sob uma rigorosa metodologia de demonstração prática recorrente daquilo que apresenta no sentido de explicar a existência, seus processos e dinâmicas, incluindo as humanas, para daí propor soluções aos problemas que a Sociedade enfrenta.

Outro aspecto importante da metodologia científica é que como percepção humana, ainda que lógica, racional e submetida à demonstração prática, a Teoria não é uma “verdade divina”, inquestionável. A física newtoniana explicava muito satisfatoriamente a existência até que surgiu a Teoria da Relatividade e passou a apresentar observações diferentes para corpos que se deslocam próximo da velocidade da luz. Traduzindo. Para Newton, o melhor trajeto entre dois pontos é a reta, para Eisntein é um senoide, um deslocamento em “S”.

O aprendizado é que nenhuma Teoria esgota o conhecimento, que é possível sucessivamente ser aperfeiçoado. O aprendizado é que a ciência não persegue a verdade, mas a melhor solução para os problemas da Sociedade. Acontece que a melhor solução hoje, pode não ser a melhor solução amanhã. A melhor solução lá, pode não ser a melhor solução aqui. A melhor solução para uns pode não ser a melhor solução para outros. Daí a ciência demandar a inteligência da Democracia das Ideias, sendo o primeiro passo a escuta verdadeira, solidária.

Daí propormos a radicalização da abertura das Universidades e seus processos de produção científica para a Sociedade, o que deve incluir parcerias e ações conjuntas entre sí e com as representações dos segmentos da Sociedade como um todo. Entendemos que a produção do conhecimento entre nós precisa de sinergia. A subordinação à lógica das particularizações e decorrentes fragmentações, nos enfraquece sobretudo política e economicamente.

Compreendemos que a produção científica não deve se limitar à elaboração de ideias, ou à acumulação de informações especializadas, sem a perspectiva da solução prática dos problemas vividos pela Sociedade, direta ou indiretamente. A ciência constitui um modo rigoroso de compreender os problemas e de construir respostas fundamentadas, demonstráveis e aplicáveis aos diferentes contextos territoriais, culturais, econômicos e ambientais em todo o mundo.

Nesse sentido, o conhecimento científico nasce da identificação de “problemas de pesquisa” concretos e relevantes para a coletividade. Desde a iniciação científica, os trabalhos de conclusão de curso, os projetos de extensão, as especializações, os mestrados e os doutorados, a definição do problema de pesquisa deve partir do diálogo com a Sociedade, considerando suas necessidades, contradições, potencialidades e formas próprias de produzir saberes. Tal orientação reforça o papel social da universidade como instituição capaz de articular formação profissional, pensamento crítico, inovação tecnológica e responsabilidade pública. É o que propomos.

Texto: João Claudio Tupinambá Arroyo. Docente do Mestrado Profissional Interdisciplinar em Gestão de Conhecimentos da Universidade da Amazônia(Unama), pró-reitor de Pesquisa e extensão.

 

Fonte: Ascom Unama

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Guarany Jr - Prof. de Graduação e Pós de Marketing, Jornalismo e Propaganda, Jornalista, Comentarista, Consultor, Administrador, Palestrante - Belém - Pará - Brasil.

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