Mulheres de diferentes países e territórios compartilham impactos da crise climática em roda de conversa na Cúpula dos Povos
“Quiseram nos apagar da história, mas agora nós estamos com os microfones e as canetas em nossas mãos.” Com essa frase, a ativista queniana Lydia Kingeru, pesquisadora e especialista em justiça climática, sustentabilidade e desenvolvimento inclusivo, encerrou uma roda de conversa realizada na tarde de sábado (15), no Mirante da Universidade Federal do Pará.
Realizado em parceria pela Fase Solidariedade e Educação e Avuar social, o encontro reuniu mulheres de diferentes etnias, países e modos de vida para discutir como a crise climática afeta suas existências e comunidades.
Entre pescadoras do Ceará e do Maranhão, ativistas do Rio de Janeiro e indígenas do Ceará — incluindo uma cacica da aldeia Jucás — Lydia Kingeru compartilhou relatos que emocionaram as participantes. Nunca a palavra “sororidade” encontrou tanto eco: mesmo vindas de realidades distintas, as mulheres se reconheceram nas dores e resistências umas das outras.
Lydia relatou que, em regiões do Quênia afetadas pela seca, mulheres que caminham longas distâncias em busca de água são alvo de violência doméstica, acusadas injustamente de traição. A mesma violência vivida por jovens indígenas brasileiras, obrigadas a casar e ter filhos precocemente; por pescadoras cearenses que enfrentam violência menstrual e dificuldades agravadas pelas mudanças nos regimes das marés.
A advogada Nazeli Vardanyan, da organização Armenian Forests Environmental, compartilhou a experiência de mobilização que ajudou a barrar o projeto da mina de ouro de Amulsar, na Armênia, que ameaçava contaminar os rios Arpa e Vorotan e o Lago Sevan, a maior reserva de água doce do Cáucaso do Sul.
Da aldeia Jucás, em Monsenhor Tabosa (CE), a cacica Rosinha falou sobre os desafios de ocupar um cargo historicamente masculino: “Não é fácil ser liderança na aldeia, medindo forças com posseiros, e ainda ser cacica. Todo mundo pode fraquejar, mas tu não podes demonstrar tua dor”, desabafou.
As pescadoras do Ceará também destacaram como as alterações climáticas afetam suas atividades, relações familiares e a saúde. Segundo Mireli Gonçalves, da Articulação Nacional das Pescadoras, as mulheres travam uma luta contínua pelo direito à identidade e à saúde. A voz indígena cearense também foi representada por Kilvia Tapeba, coordenadora da Articulação das Mulheres Indígenas do Estado.
Kilvia e outras mulheres indígenas do Ceará participaram da pesquisa: “Sobre Nossas Terras, Sobre Nossos Corpos. Mudanças Climáticas, Gênero e Saúde Sexual e Reprodutiva em Comunidades Rurais e Indígenas no Brasil, Quênia e Tanzânia”. O estudo, apresentado no encontro, foi realizado pela WeWorld e ARCO/Universidade de Firenze (Itália), desenvolvida em colaboração com equipes locais e com a participação da Avuar Social.
A educadora Clara de Lima, da Fase Rio de Janeiro, explicou que “a ideia era refletir sobre o enfrentamento das mulheres na crise climática e suas formas de resistência. O mais potente foi perceber o que temos de singular, mas também o que temos em comum”.
Para ela, as histórias se entrelaçam na busca por uma justiça climática que pense a vida de uma forma digna, “que conecte cidades, que conecte periferias, espaços rurais, outros possíveis territórios e diferentes países, mas pensando as mulheres enquanto fundamentais no processo de justiça climática”.
Já Andrea Souza Lima, gestora de programas e projetos da Avuar Social e coordenadora da roda, destacou que o encontro evidenciou a força da mobilização a partir da metodologia do enlace, que permite compartilhar experiências desde os territórios e articular diferentes forças políticas, de ativistas climáticas a pescadoras.
O resumo e as recomendações do estudo estão disponíveis nos perfis @avuarsocial e @wewordonlus, no Instagram.
Fonte: Jambo Comunicação/Por Marta Brasil






