Quebrando muros: Mestranda da UFOPA realiza defesa de dissertação inédita dentro de Terreiro de Umbanda em Santarém
Pesquisa sobre encantarias caboclas transforma o barracão em espaço acadêmico e legitima as religiões de matriz africana como produtoras de conhecimento na Amazônia.
A ciência e a ancestralidade se encontram nesta segunda-feira (31). O Terreiro de Umbanda São Pedro, na zona urbana de Santarém, será palco de um marco acadêmico e de resistência social: a defesa presencial da dissertação de mestrado da pesquisadora Luciana Guedes. O evento, aberto à comunidade, ocorre às 19h.
Com o título “Entre Territórios e Manifestações de Encantarias Caboclas” , a pesquisa vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Sociedade (PPGCS) da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) propõe uma quebra de paradigmas. O terreiro deixa de ser analisado apenas como um cenário e é reconhecido como um território vivo, onde a musicalidade, as memórias, os corpos e as entidades são produtores ativos de saberes.
Legado de diálogo e combate ao preconceito
A defesa coroa um trabalho de abertura que vem sendo construído ao longo de dois anos. Em fevereiro, a própria pesquisadora e o Terreiro São Pedro promoveram a roda de conversa “O Terreiro Ensina”, iniciativa que abriu as portas do espaço sagrado para acadêmicos e a comunidade em geral. O encontro anterior, que debateu o direito de crer e o enfrentamento ao racismo religioso, serviu como alicerce para o momento histórico desta noite.
“Nossa análise mostra que a festa começa muito antes do toque do atabaque. Ela se produz nas folhas catadas, nos alimentos preparados e no trabalho coletivo”, destaca a mestranda Luciana Guedes, que uniu sua vivência como filha de santo ao rigor de uma etnografia situada. Para ela, as encantarias caboclas não são apenas objetos de estudo, mas “sujeitos de conhecimento e agentes das territorialidades”.
O Terreiro como espaço de reconhecimento
Para o sacerdote do Terreiro São Pedro, Pai João Paulo (Obarassy), sediar uma banca de mestrado da universidade federal é um passo fundamental para o reconhecimento institucional da fé afroreligiosa.
“Vivenciar essa experiência pela primeira vez dentro do nosso barracão é motivo de muita satisfação e orgulho. Nossa casa sempre foi um lugar de acolhimento e cura, mas hoje reafirmamos para a sociedade que o terreiro também é um espaço de ciência, educação e produção de conhecimento legítimo. Receber a universidade aqui dentro é uma resposta de respeito contra a intolerância e um marco histórico para o povo de santo de toda a região”, celebra o sacerdote.
A banca avaliadora contará com pesquisadores da UFOPA e da Universidade Estadual Paulista (UNESP), sob a orientação do Prof. Dr. Diego Marinho de Góis e coorientação da Profa. Dra. Carla Ramos Munzanzu.
SERVIÇO
O quê: Defesa de Dissertação de Mestrado de Luciana Guedes.
Onde: Terreiro de Umbanda São Pedro — Av. Presidente Vargas, nº 1754 (entre as Travessas Moraes Sarmento e Silvino Pinto), Bairro Santa Clara.
Quando: Hoje, 31 de agosto, às 19h.
Fonte: Assessoria
Por: Henrique Britto






