Crise climática afeta mais a saúde das populações vulneráveis
Em evento na Casa Balaio, em Belém, a organização Médicos Sem Fronteiras antecipa debates da COP 30 e faz alerta
A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) promoveu nesta sexta-feira (23), em Belém, um encontro aberto com a comunidade para discutir a relação entre emergência climática e saúde. Realizado na Casa Balaio, o evento antecipou debates sobre temas importantes da COP 30, a 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, que será realizada na capital paraense, em novembro.
As frequentes catástrofes ocorridas em todo o planeta expõem milhares de pessoas a condições de saúde precárias, aponta MSF, em tom de alerta. “As populações mais vulnerabilizadas são as que mais sofrem as consequências dos desastres ambientais causados pelas mudanças climáticas”, afirmou a psicóloga alagoana Renata Santos, presidente do Conselho Administrativo de MSF-Brasil. “Isso nós temos percebido na prática na nossa atuação nos mais de 70 países onde atuamos”, assinalou.
No caso do Brasil, alguns dos exemplos mais recentes foram as enchentes no Rio Grande do Sul, onde MSF atuou, e as secas que atingiram a região amazônica.
Por atuar na ponta, em contato direto com as pessoas afetadas, MSF testemunha em primeira mão o impacto dos eventos climáticos sobre as populações de todo o planeta. “A gente vê no nosso dia a dia como as crises ambientais, os conflitos, as epidemias afetam as populações. As informações coletadas não nos dão sinais de que essa situação será resolvida no curto prazo. Ao contrário”, alertou Renata.
Migração e fome
Os fluxos migratórios, que podem resultar da combinação de conflitos com mudanças climáticas extremas, também preocupam MSF. “Secas e inundações afetam a produção de alimentos, o que pode gerar uma crise nutricional e impulsionar movimentos migratórios”, informou a médica Maria Guevara, secretária médica internacional de Médicos Sem Fronteiras. “Esses eventos também contribuem para o aumento de surtos de doenças evitáveis, como sarampo e cólera, bem como a desnutrição”, observou.
Norte-americana de origem filipina, Maria Guevara reforça que a emergência climática afeta de maneira desigual as populações do planeta, com impacto maior sobre aquelas que já são mais vulneráveis. “A mudança de regimes de chuva também modifica o ciclo de vida de vetores de doenças, como mosquitos, que se instalam em regiões onde antes não estavam presentes”, destacou, citando o avanço da dengue e da malária.
Para o médico indígena Idjarrury Sompré, que atua na Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) na região de Santarém, os impactos da crise climática são mais evidentes e intensos nas comunidades indígenas. “Nas cheias e nas secas, a questão mais relatada é a insegurança alimentar. A alteração climática muda o ciclo da chuva e da seca, afetando a produção de alimentos”, disse ele, que é da etnia kaingang, originário de Santa Catarina.
Segundo Idjarrury, tudo o que interfere no equilíbrio da comunidade, no chamado “bem viver indígena”, desarranja a organização social e compromete a vida em harmonia com o meio ambiente. Os registros de problemas de saúde mental entre a população também crescem e acendem um sinal de alerta.
Idjarrury também defendeu que os povos originários sejam cada vez mais protagonistas do trabalho de cuidado de sua própria saúde. “A base de uma intervenção em saúde é promover autonomia das comunidades e enfrentar o isolamento”, afirmou.
A voz da COP 30
Para Médicos Sem Fronteiras, a COP 30 abre caminho para que as vozes das comunidades sejam ouvidas e respeitadas pelo conhecimento que podem oferecer para o aprimoramento das políticas de saúde.
MSF espera que os debates da reunião que acontece em novembro possam ser enriquecidos pelas experiências daqueles que enfrentam os efeitos da emergência climática, tanto no Brasil quanto no resto do mundo.
Nas últimas edições da COP, segundo Renata Santos, houve muito pouco espaço para a participação das comunidades, e o desejo é de que essa realidade mude em Belém. “No Brasil, a gente tem a oportunidade de incluir as vozes das comunidades, principalmente as comunidades indígenas, as guardiãs da floresta, nas discussões”, afirmou.
Fonte: Jambo Comunicação
Por: Luana Vidal






