Verão amazônico e os riscos de doenças tropicais no Pará
Médicos enfrentam o desafio de identificar sinais precoces, orientar comunidades e reduzir complicações
Apesar da redução no número de casos prováveis de dengue no Pará, o aumento das mortes pela doença em 2025 acende um alerta para a gravidade das arboviroses no estado. Dados da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) apontam 17 mil casos prováveis de dengue neste ano, uma queda de cerca de 14% em comparação com o mesmo período de 2024, quando foram registrados 19,7 mil casos. Em contrapartida, os óbitos mais que dobraram: passaram de 11 para 28, demonstrando que, embora menos frequente, a doença continua apresentando alto potencial de gravidade.
No verão amazônico, a combinação de calor intenso, chuvas irregulares e períodos de estiagem cria o cenário ideal para a proliferação de mosquitos transmissores de doenças como dengue, chikungunya, malária, leptospirose, febre Oropouche e febre Mayaro. No Sul e Sudeste do Pará, especialistas alertam que o acúmulo de água parada e as mudanças climáticas favorecem a reprodução de vetores como o Aedes aegypti e o Anopheles, aumentando o risco de surtos.
“O padrão climático da região favorece o aumento dos casos, que podem evoluir para formas graves e até levar ao óbito quando não diagnosticados e tratados precocemente”, explica o infectologista Harbi Othman, professor da Afya Marabá.
Segundo o especialista, a prevenção continua sendo a principal estratégia para reduzir a circulação dessas doenças. Eliminar criadouros, manter caixas-d’água fechadas, descartar corretamente o lixo, utilizar repelentes, telas de proteção e mosquiteiros são medidas simples, mas fundamentais. O diagnóstico precoce também é decisivo para evitar complicações.
O cenário nacional reforça esse desafio. Dados do Boletim Epidemiológico Brasileiro mostram que as regiões Norte e Nordeste concentram as maiores taxas de casos e mortes por doenças tropicais negligenciadas, realidade diretamente associada às desigualdades sociais e às condições ambientais.
Embora existam avanços científicos, como a utilização de mosquitos Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia, capaz de reduzir a transmissão de vírus como dengue e chikungunya, o controle do mosquito ainda depende, principalmente, do engajamento da população.”Enquanto não tivermos vacinas amplamente seguras e eficazes para todas essas doenças, o combate aos criadouros e as ações comunitárias continuam sendo nossas ferramentas mais importantes”, reforça Othman.
Pequeno mosquito, grande desafio
Para a bióloga e mestre em Zoologia Roberta Raiol, professora da Afya Abaetetuba, o combate às arboviroses precisa fazer parte da rotina da população.
“As arboviroses fazem parte do cotidiano da Amazônia e podem ser prevenidas com atitudes simples. Compreender como o clima influencia a proliferação dos mosquitos e reconhecer os sinais de alerta é essencial para proteger a saúde individual e coletiva”, afirma.
Ela destaca que a eliminação de focos do mosquito deve ocorrer não apenas dentro das residências, mas também em quintais, terrenos, escolas e espaços públicos. A orientação é realizar inspeções semanais em calhas, vasos de plantas, pneus, garrafas, caixas-d’água e qualquer recipiente que possa acumular água.
Além da dengue, zika e chikungunya, transmitidas pelo Aedes aegypti, a especialista chama atenção para doenças emergentes na região, como as febres Oropouche e Mayaro. Apesar de apresentarem sintomas semelhantes aos de outras arboviroses, elas são transmitidas por outros vetores e exigem avaliação médica para um diagnóstico correto.
Outro alerta importante é evitar a automedicação. Ao apresentar sintomas compatíveis com qualquer arbovirose, a recomendação é procurar imediatamente uma unidade de saúde para avaliação e tratamento adequado.
Saiba reconhecer os principais sintomas
Dengue: febre alta, dor de cabeça, dores no corpo, dor atrás dos olhos e manchas na pele. Dor abdominal intensa, vômitos persistentes e sangramentos são sinais de gravidade.
Zika: febre baixa, manchas avermelhadas, coceira e conjuntivite. O maior risco é para gestantes, devido à possibilidade de malformações fetais.
Chikungunya: febre alta e dores intensas nas articulações, que podem persistir por meses.
Febre amarela: febre, calafrios, dores musculares, náuseas e, nos casos graves, icterícia e sangramentos.
Febre Mayaro: sintomas semelhantes aos da chikungunya, principalmente febre e dores articulares.
Febre Oropouche: febre, dor de cabeça, dores musculares, náuseas e calafrios.
Fonte: Temple Comunicação
Por: Alessandra Barreto






