Bani Vadanaha: povo Deni do Xeruã retoma festa tradicional após mais de duas décadas
Celebração reúne conhecimentos ancestrais, caça, cantos, rituais e vínculos entre famílias
Depois de mais de duas décadas sem ser realizada, uma das mais importantes expressões culturais do povo Deni do rio Xeruã foi retomada entre os meses de junho e julho, na Terra Indígena Deni, no Amazonas. O Bani Vadanaha, que significa “festa da caça”, reúne caça, cantos, rituais, pinturas, brincadeiras e alimentos em uma celebração que fortalece vínculos entre famílias e promove a transmissão de conhecimentos entre gerações.
A retomada da festa foi uma decisão coletiva dos Deni. Em abril de 2025, lideranças de todas as aldeias do território se reuniram na Aldeia Itaúba para discutir a realização da celebração. A proposta foi aprovada por unanimidade. Na ocasião, também foram definidos os rituais e cantos que fariam parte do Bani Vadanaha, além da divisão de tarefas e do calendário de preparação.

A iniciativa partiu dos mais velhos, que perceberam que muitos jovens, já com suas próprias famílias e assumindo responsabilidades comunitárias, ainda não haviam vivenciado a celebração. A preocupação estava relacionada à continuidade de conhecimentos tradicionais, como cantos, rituais e práticas que fortalecem a cultura, os vínculos comunitários e a relação com o território.
“Agora, fizemos uma grande luta para realizar novamente a festa, porque os mais velhos estão indo embora e, com eles, parte dos conhecimentos. Fizemos esse grande esforço para repassar esse conhecimento para os mais jovens”, afirma Vabishi Deni, liderança do povo Deni e um dos organizadores da festa.
Itavari: vínculos que atravessam gerações
Um dos momentos centrais do Bani Vadanaha é a formação dos itavari, relação equivalente ao compadrio, estabelecida entre duas famílias a partir de um compromisso de companheirismo e cuidado mútuo por toda a vida. “Itavari significa a gente unir a nossa família com a do outro para formar uma grande família”, explica Pha’avi Deni, presidente da Associação do Povo Deni do Xeruã (Aspodex).
Para fortalecer esse vínculo, uma grande caçada é organizada. Cinco grupos, formados por caçadores e suas famílias e reunindo cerca de 100 pessoas, permaneceram durante 18 dias em diferentes pontos da floresta. Enquanto os caçadores percorriam a mata em busca dos animais, outros integrantes das famílias preparavam e defumavam as carnes nos acampamentos, mantendo o fogo aceso continuamente.

O processo exige conhecimentos transmitidos entre gerações. Na floresta, os caçadores interpretam sons, cheiros, rastros e sinais do céu para localizar os animais. Nos acampamentos, o manejo do fogo requer experiência para manter uma intensidade baixa e constante, garantindo a conservação da carne.
“É uma relação harmônica entre humanos e não humanos. Uma ecologia plural, uma relação íntima dos Deni com os seres que vivem no território. A vida vai correndo através da floresta e da água, de forma bonita e natural”, observa Karina Nymara, indigenista da Operação Amazônia Nativa (OPAN), que acompanhou a celebração junto aos Deni.
Enquanto os caçadores estavam na floresta, a comunidade na aldeia Boiador também se preparava para a chegada. Foram organizados alimentos e bebidas, construídas pontes e abertos caminhos para a passagem dos caçadores. O retorno não tinha data anunciada: a chegada surpresa é parte da celebração.
Uma aldeia em festa
Já passava da meia-noite quando os primeiros pontos de luz começaram a surgir na floresta. Da aldeia Boiador, os Deni acompanharam a chegada dos caçadores enquanto a liderança mais velha, Doutor Barros, narrava, na língua Deni, a jornada realizada na mata.

A chegada foi marcada por cantos, pinturas, adornos e uma corrida entre os itavari. Crianças, homens e mulheres participaram da disputa, em que os caçadores tentavam alcançar seus itavari que haviam permanecido na aldeia e tomar deles pequenos cocares ou flechas adornadas, que representam troféus.
Em seguida, as caças foram levadas ao centro da aldeia e recebidas por uma grande roda, ao som do Bani Tamidi, o canto da caça. Os alimentos foram posteriormente destinados às famílias dos itavari e compartilhados no terreiro da aldeia, junto a produtos dos roçados, como banana, macaxeira, abacaxi, cará e farinha, além do kirihá, bebida fermentada feita com patauá e goma de farinha de tapioca.
A celebração continuou nos dias seguintes com brincadeiras tradicionais, como Manu (macaco cairara), Hizama (queixada) e Hava Pashu (cobra d’água). À noite, os cantos Zazaha e Mishe Biriharu ecoaram pela aldeia.
A festa completa se estendeu por mais de 40 dias, desde a formação dos itavari até a brincadeira do Shiri, que envolve uma disputa por pedaços de cana-de-açúcar e abacaxi. Ao final, as famílias retornaram para suas aldeias, levando consigo a memória dos dias de encontro.
Cultura e território
A retomada do Bani Vadanaha foi apoiada pelo projeto Raízes do Purus, realizado pela Operação Amazônia Nativa (OPAN) em parceria com a Petrobras. A equipe de indigenistas do projeto acompanhou a celebração e participou dos diferentes momentos da festa, fortalecendo a relação com o povo Deni e ampliando o conhecimento sobre seus modos de vida e práticas culturais.

“Presenciando todo esse processo da festa e observando a relação do povo com a natureza e com as suas tradições, percebemos o quão forte a cultura Deni é”, afirma Raimundo Francisco, indigenista da OPAN.
Para os Deni, a retomada do Bani Vadanaha representa também uma oportunidade de garantir que os conhecimentos transmitidos pelos mais velhos continuem vivos entre as novas gerações. Mais do que uma celebração da caça, a festa reúne território, memória, relações de parentesco, alimentação e cultura em uma experiência coletiva que reafirma os vínculos do povo Deni com seu território.
Fonte: DePropósito Comunicação de Causas
Fonte: Jéssica Amaral






