Projeto resgata legado da primeira cientista da Amazônia
Livro, documentário, site na internet e palestras para estudantes apresentam a história da pioneira Clara Pandolfo e sua luta na defesa da floresta amazônica
O lançamento do livro “Clara Pandolfo, uma cientista da Amazônia”, realizado nesta segunda-feira (1º), no Palacete Faciola, em Belém, deu partida a um grande projeto de resgate da história da primeira cientista da Amazônia. Escrito pelo jornalista e historiador Murilo Fiuza de Melo, o livro conta a trajetória de vida pessoal e profissional da paraense que enfrentou preconceitos e desafios na luta pelo desenvolvimento sustentável da Amazônia.
O Projeto Clara Pandolfo envolve a produção de um minidocumentário e um site, além de ciclo de palestras com estudantes de ensino médio e de universidades. O objetivo é contar a história da cientista, hoje pouco conhecida pelas novas gerações da Amazônia e do país. O projeto tem patrocínio master da Vale e conta com o Instituto YUDQS como patrocinador na cota de apoio.

O livro pode ser baixado gratuitamente no site www.clarapandolfo.online. Uma versão em audiobook também está disponível, assim como o minidocumentário sobre a vida da cientista.
Clara Martins Pandolfo foi a primeira mulher a se formar em Química na região Norte, aos 17 anos, em 1929, e uma das cinco primeiras do país. É considerada pioneira na emancipação feminina. Na década de 1930, participou do movimento feminista em defesa do voto da mulher e do sufrágio universal no país. “Clara enfrentou diversas barreiras impostas às mulheres e que perduram até hoje, mas conseguiu deixar um relevante legado de vida pública. Clara amava a Amazônia e fazia ciência a partir da Amazônia”, afirmou Murilo Fiuza de Melo, que é neto da cientista.
Em 36 anos de serviço público, boa parte na Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), destacou Murilo, Clara Pandolfo sempre defendeu suas ideias de conservação da floresta por meio do binômio ecologia-economia. “Com mais de 50 trabalhos publicados, em quase 60 anos de carreira, Clara sempre foi voz dissonante e lutou contra o modelo agropecuário para a Amazônia”, disse o escritor.
Espelho
A professora Alinne Castro participou do lançamento do Projeto Clara Pandolfo, no Palacete Faciola, com um grupo de estudantes do Colégio Paes de Carvalho, instituição onde Clara Pandolfo estudou. A história de Clara, exibida no minidocumentário, emocionou os jovens. “Enquanto estudantes do Paes de Carvalho, eu vejo esse momento como um espelho para eles. Assim como Clara, à frente do seu tempo, foi a primeira cientista da Amazônia, eles também podem galgar outros lugares. Além disso, para as meninas, Clara é um modelo de protagonismo a ser seguido”, assinalou a professora.
O secretário adjunto de Cultura do Pará, Bruno Chagas, classificou como muito importante o resgate da memória e o legado de Clara Pandolfo para a ciência na Amazônia. “Ela foi uma mulher que desbravou esse contexto da preservação ao repensar a política de exploração que se estava aplicando na Amazônia. Clara teve um pensamento que marcou sua época e, além disso, definiu toda uma política que veio a ser estabelecida dentro da região”, disse.
Para o professor e historiador Michel Pinho, Clara Pandolfo é uma personagem importante para toda sociedade. “Uma mulher que se forma em Química nos anos 30 e atravessa todo o século XX lutando pela Amazônia mostra a necessidade de se reconhecer as mulheres como protagonistas de sua própria história. Fazer com que jovens tomem conhecimento do que Clara Pandolfo fez para a história da ciência no Brasil reforça a educação e a cidadania”, destacou.
Serviço
Site Clara Pandolfo: clarapandolfo.online/
Perfil no Instagram: @_clarapandolfo
Agenda de palestras e exibição do documentário
Data: 03/09/25.
Sessão: 15h.
Local: Museu Emílio Goeldi.
Endereço: Campus de Pesquisa, Avenida Perimetral, 1901, Bairro Terra Firme. Belém/PA.
Data: 04/09/25.
Sessão: 9h.
Local: UFPA – Universidade Federal do Pará.
Endereço: Campus profissional da UFPA– Belém/PA – Auditório do ICSA.
Data: 05/09/25.
Sessão: 8h30.
Local: UNAMA.
Endereço: Alcindo Cacela, 287. Umarizal. Belém/PA.
Sub
Uma mulher à frente do seu tempo
Filha do comerciante português Albano Augusto Martins e da paraense Judith Barreau do Amaral Martins, Clara Barreau do Amaral Martins nasceu em Belém, no dia 12 de junho de 1912. Nos anos de 1930, conheceu Rocco Raphael Pandolfo, gaúcho de Porto Alegre que se mudara para a capital paraense no fim da década de 1920 em busca de emprego. Os dois se casaram em 1936, quando Clara adotou o sobrenome que passou a usar na vida profissional. O casal viveu junto por 50 anos e teve três filhos: Vera, Sérgio (o médico ginecologista e escritor Sérgio Pandolfo) e Maria Lúcia.
Em 1930, Clara graduou-se pela então Escola de Chimica Industrial do Pará, dirigida pelo renomado naturalista francês Paul Le Cointe, tornando-se a primeira mulher da região Norte a formar-se nessa disciplina e uma das cinco primeiras no país. Como trabalho de graduação, apresentou a monografia “Contribuição ao estudo químico das plantas amazônicas”, ponto de partida para uma trajetória pessoal e profissional voltada à discussão das questões regionais e à utilização dos recursos naturais amazônicos.
Clara foi a última diretora da Escola de Química Superior do Pará antes da sua incorporação pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Em sua gestão, de janeiro de 1961 a janeiro de 1964, a cientista conseguiu implantar o Laboratório de Análise Espectral, inaugurado em 1963, por meio de convênio com a SPVEA (Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia), instituição que antecedeu a Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia). O laboratório contava com equipamentos de ponta comprados no exterior.
A cientista Clara Pandolfo morreu aos 97 anos, em 2009. Para o escritor Murilo Fiuza de Melo, a trajetória da cientista mostra a importância “de se pensar a Amazônia” e fazer ciência com foco no desenvolvimento sustentável. “O projeto ‘Clara Pandolfo, uma cientista da Amazônia’ tem o papel de fomentar debates e registrar que a ciência pode e deve ser produzida na Amazônia e por mulheres. Clara Pandolfo é um ponto de prova que serve para motivar e inspirar novas gerações de estudantes na busca pelo conhecimento”, afirmou.
Fonte: Assessoria Jambo Comunicação






