Políticas públicas e redes de apoio são urgentes para viabilizar negócios de mulheres, aponta Ana Fontes, presidente de grupo do G20 para pauta das mulheres
Em visita a Belém, para participação do Fórum CME, a presidente do W20 apresentou dados sobre a disparidade de representação e de renda, defendendo que o fortalecimento econômico feminino depende de ações estruturais
Apesar de as mulheres liderarem quase 50% dos lares brasileiros e comandarem 38% das empresas do país — somando cerca de 10 milhões de empreendedoras —, a sub-representação nos espaços de decisão e o acesso restrito a recursos ainda barram a evolução econômica feminina. O cenário foi detalhado por Ana Fontes, presidente do W20, durante participação do Fórum CME, que defendeu a urgência de reformas estruturais para além da iniciativa privada. Segundo a especialista, o avanço real do segmento exige a formulação de políticas governamentais direcionadas e a criação de redes de cooperação que sustentem a operação desses negócios.
O desequilíbrio entre a relevância das mulheres na base da economia e a ocupação de cargos de liderança fica evidente nos dados do Legislativo, onde elas ocupam apenas 18% das cadeiras na Câmara dos Deputados, e na baixa participação verificada no Judiciário e nos conselhos corporativos. A falta de espaço de poder reflete diretamente na dificuldade de aprovação de pautas que facilitem o cotidiano de quem empreende, como o acesso facilitado ao crédito e a infraestrutura de apoio familiar.

Para Ana Fontes, a superação desses entraves depende de ações que combinem capacitação, financiamento e suporte prático para a jornada de trabalho. “É fundamental ter políticas públicas para mudar o jogo, garantindo acesso a crédito diferenciado e microdoações para mulheres em situação de vulnerabilidade, além de criar espaços para que possam vender seus produtos e garantir acesso a creches para seus filhos”, explicou a presidente do W20. Ela aponta ainda que, em paralelo ao papel do Estado, a conexão entre as profissionais é indispensável para abrir portas, gerar negócios e dar suporte emocional, recomendando a participação ativa em redes de apoio.
Essa rede de apoio é fundamental para compensar as disparidades de mercado, que se aprofundam quando cruzadas com recortes de raça e de gênero. O acesso ao crédito bancário formal, por exemplo, permanece como um dos principais obstáculos para o crescimento das pequenas empresas, com exigências que muitas vezes desconsideram a realidade de tempo e de renda das candidatas.
A desvantagem financeira torna-se ainda mais acentuada ao analisar os rendimentos médios e as taxas de faturamento de negócios liderados por mulheres negras, conforme apontam as pesquisas de mercado do Sebrae Pará. Os indicadores mostram que o faturamento de empresas comandadas por mulheres negras chega a ser até 46% menor do que o daquelas geridas por mulheres brancas, evidenciando como os recortes raciais sobrepostos aos de gênero impõem barreiras ainda mais severas para a sustentabilidade dessas iniciativas e limitam a mobilidade econômica nas periferias e comunidades tradicionais.
O diretor-superintendente do Sebrae no Pará, Rubens Magno, apresentou dados indicando que, do total de crédito concedido a pequenos negócios, apenas uma fração chega às mãos de mulheres, com cenários ainda mais restritivos para mulheres negras, que registram faturamento e rendimentos significativamente menores. “Apenas 20% do crédito bancário vai para os pequenos negócios e, desse montante, somente 30% chega às mulheres, evidenciando uma barreira que precisa ser combatida com políticas de crédito focadas e com a compreensão de que as mulheres enfrentam uma dupla jornada que reduz o tempo disponível para os negócios”, analisou Rubens Magno.
A busca por soluções para essas demandas motivou as discussões promovidas pelo Conselho da Mulher Empresária da Associação Comercial do Pará, focando em gerar alternativas que ajudem as empreendedoras a superar barreiras e expandir sua atuação no mercado local. “Nós organizamos painéis sobre a realidade regional, mostrando como desenvolver produtos respeitando a nossa terra, e debates sobre posicionamento e liderança, contando com relatos de persistência de empresárias premiadas”, destacou Poliana Bentes, presidente do CME/ACP. Ela complementou que o encontro com Ana Fontes permitiu “entender fragilidades e desafios que são comuns a tantas de nós, sendo que encontros assim têm justamente o objetivo de tornar esse espaço efetivo para que as mulheres possam se apoiar e se desenvolver juntas”.
Fórum CME – 31 Anos – Mulheres que Movem a Economia
O debate ocorreu durante o “Fórum CME 31 Anos – Mulheres que Movem a Economia”, realizado no dia 29 de maio, no Auditório da FIEPA, em Belém, reunindo empresárias, gestores e lideranças locais. O evento celebrou a trajetória do Conselho no fomento ao empreendedorismo feminino paraense, consolidando propostas de articulação entre entidades representativas, Sebrae e poder público para viabilizar as demandas de crédito, capacitação e canais de venda discutidas ao longo da programação.
Sobre o CME
Fundado em 1995 como o braço feminino da Associação Comercial do Pará (ACP), o Conselho da Mulher Empresária consolidou-se como uma das principais forças associativas da Região Norte. A instituição atua de forma contínua na promoção da liderança feminina, na capacitação técnica, na geração de novos negócios e na ampliação da representatividade das mulheres nos espaços de tomada de decisão e desenvolvimento econômico regional.
Fonte: Ascom/CME






