Concluir um curso superior é o sonho de milhões de brasileiros. Seja pelo desejo de exercer uma profissão, seja por vislumbrar na graduação um caminho para melhorar de vida, conquistar um diploma é uma meta cada vez mais perseguida. Contudo, uma reflexão ainda pouco incipiente no país diz respeito ao que acontece depois da formatura. Essa é uma agenda que precisa de mais atenção tanto por parte das instituições de educação superior quanto dos gestores das políticas educacionais.
O fim da graduação representa o início de uma nova etapa na vida dos egressos, que demanda políticas públicas específicas. Saber quantos trabalham, em quais atividades estão inseridos, quanto recebem e como suas carreiras evoluem permite compreender a relação entre a formação oferecida e as oportunidades profissionais. Para as instituições de educação superior, por exemplo, acompanhar essas trajetórias é uma forma de avaliar decisões acadêmicas e identificar dificuldades que os indicadores de matrícula e conclusão, isoladamente, não revelam.
Uma política consistente de acompanhamento deve começar com perguntas precisas. Qual percentual dos formados atua na área do curso? Quanto tempo leva para conquistar essa posição? Houve mudança de função ou aumento de renda durante a graduação? Quem trabalha em outro segmento fez essa escolha ou encontrou obstáculos para ingressar na profissão? As respostas ajudam a distinguir percursos diferentes e a direcionar orientação de carreira, formação continuada e aproximação com empregadores.
O Indicador ABMES/Symplicity de Empregabilidade (IASE) 2026 oferece um exemplo das informações que esse acompanhamento pode produzir. Entre os 10.317 egressos de 99 instituições participantes, 85,2% estavam trabalhando cerca de 15 meses após a formatura e 67,2% atuavam na área de formação. Outros 9,4% trabalhavam em um segmento diferente por escolha própria. A remuneração acrescenta outra dimensão à análise. Entre os participantes que trabalhavam quando ingressaram na graduação, o valor declarado passou de R$ 3.129 para R$ 5.693, um crescimento nominal de 81,9%.
Para quem escolhe um curso, informações desse tipo permitem avaliar as possibilidades com maior clareza. Para a instituição, oferecem subsídios para revisar currículos, fortalecer experiências práticas e identificar demandas de atualização. Para os gestores públicos, ajudam a orientar políticas de acesso, permanência e inserção profissional, avaliar os resultados dos investimentos em educação superior e identificar desigualdades que exigem ações específicas. A utilidade aumenta quando os dados são separados por curso, região, perfil dos estudantes e tempo de conclusão.
Nesse sentido, a revisão dos instrumentos de avaliação de cursos e instituições conduzida pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) abre espaço para fortalecer o acompanhamento dos egressos. A proposta submetida à consulta pública prevê critérios mais detalhados para verificar tanto o monitoramento da trajetória dos formados quanto o uso dessas informações no aprimoramento da formação oferecida.
Entre os critérios previstos estão a manutenção de um programa institucional com banco de dados, integração com bases públicas e pesquisas periódicas sobre inserção profissional, satisfação com o curso e retorno dos investimentos formativos. A proposta também contempla ações de educação continuada e mentoria, além da participação dos egressos na governança institucional.
A revisão dos instrumentos prevê ainda que os Núcleos Docentes Estruturantes incorporem o acompanhamento da inserção profissional à revisão dos projetos pedagógicos, aproximando a coleta de informações das decisões sobre o ensino. Uma dificuldade recorrente relatada pelos formados pode motivar mudanças nas atividades práticas, novas parcerias ou ações de desenvolvimento profissional.
Trata-se, portanto, de uma agenda que exige continuidade e rigor metodológico. Em seminário promovido pelo Inep em outubro, pesquisadores discutiram a integração entre o Censo da Educação Superior e a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), além de experiências institucionais de acompanhamento. Articular registros administrativos e escuta dos egressos pode ampliar o conhecimento sobre emprego, empreendedorismo e renda, preservadas as características e limitações de cada fonte.
A entrega do diploma encerra a etapa acadêmica, mas deixa perguntas que instituições e gestores públicos precisam continuar fazendo. Onde os formados encontram oportunidades? Quais barreiras enfrentam para exercer a profissão? Como suas condições de trabalho evoluem? Manter essas perguntas na agenda exige acompanhamento contínuo e disposição para agir sobre os problemas identificados. É nesse compromisso com o percurso de quem se formou que a educação superior pode encontrar caminhos para ampliar o alcance dos seus resultados.
Fonte: Janguiê Diniz, Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES); secretário-executivo do Brasil Educação – Fórum Brasileiro da Educação Particular; fundador, controlador e presidente do conselho de administração do grupo Ser Educacional; presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo, da JD Business Academy e da Mentor Capital Group.






