Instituto Letras que Flutuam leva debate sobre cultura ribeirinha e geração de renda na Amazônia para feira de empreendedores em Belém
Atividade integra a Semana Mundial do Meio Ambiente e reúne iniciativas ligadas à economia criativa, bioeconomia e empreendedorismo local em Belém
O Instituto Letras que Flutuam participa, no sábado (30), da programação da 1ª Feira de Empreendedores Locais de Belém, realizada na agência BB Doca, na capital paraense. A atividade integra a Semana Mundial do Meio Ambiente e irá discutir o potencial da cultura ribeirinha amazônica como ferramenta de geração de renda, fortalecimento territorial e valorização de saberes tradicionais. A entrada é franca.
A programação do instituto ocorre às 12h e terá como foco a cultura dos abridores de letras — mestres responsáveis pelas pinturas e tipografias coloridas presentes nas embarcações amazônicas — além das ações desenvolvidas pelo projeto na valorização dos artistas ribeirinhos e na ampliação da economia criativa ligada aos rios amazônicos.
Economia criativa e floresta em pé
A participação acontece em um momento em que pesquisadores e especialistas vêm defendendo o fortalecimento da economia criativa e da bioeconomia amazônica como alternativas capazes de gerar renda sem ampliar a pressão sobre a floresta. Estudo divulgado pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) aponta que a economia criativa movimentou cerca de R$ 1,2 bilhão no Pará em 2022, gerou mais de 42 mil empregos formais e cresceu quase 30% na última década no estado. Segundo o estudo, o setor gera R$ 6,51 para cada R$ 1 investido.
“A economia criativa é um universo de geração de renda em comunidades urbanas e rurais, além de grande empregador, especialmente de jovens e mulheres. Estimular o setor fortalece práticas sustentáveis, promove inclusão social e diversidade cultural. A indústria criativa também ajuda a preservar o patrimônio cultural ao mesmo tempo em que gera valor econômico a partir dele”, afirmou o diretor de Estatística e Tecnologia da Fapespa, Márcio Ponte.
Arte ribeirinha: patrimônio cultural amazônico
Primeiro instituto do Brasil dedicado exclusivamente à cultura dos abridores de letras, o Letras que Flutuam atua na preservação e fortalecimento desse saber centenário presente nos rios amazônicos. Formalizado em 2024 a partir de mais de duas décadas de pesquisa conduzidas pela pesquisadora Fernanda Martins, o instituto já identificou mais de 130 abridores de letras em municípios paraenses como Belém, Abaetetuba, Igarapé-Miri, Barcarena, Soure, Salvaterra, Curralinho e Breves.
Além da preservação da memória gráfica das embarcações amazônicas, o projeto desenvolve ações de formação, oficinas sobre direitos autorais, precificação e economia criativa, além de ampliar a circulação nacional dos mestres ribeirinhos em eventos culturais e educativos. Em 2025, o projeto “Letras que Navegam – Oficinas de Letras Amazônicas pelo Brasil” percorreu oito capitais brasileiras levando oficinas, demonstrações ao vivo e rodas de conversa conduzidas pelos próprios abridores.
Dentro dessa proposta, o instituto inaugurou neste ano o “Canto do Letras”, espaço localizado no bairro da Campina, em Belém, voltado à valorização da cultura gráfica ribeirinha amazônica. O local reúne peças de moda e design criadas em parceria com mestres abridores de letras de diferentes regiões do Pará, além de funcionar como ponto de encontro, demonstração cultural e comercialização de produtos desenvolvidos pelos artistas.
A coleção reúne camisas, agendas, cadernetas, letras decorativas, impressos e placas pintadas à mão inspiradas nas cores, ornamentos e paisagens dos rios amazônicos. A renda das obras produzidas pelos abridores é destinada integralmente aos próprios artistas.
“Espaços como o Canto do Letras deveriam existir em profusão numa cidade como Belém, porque existem muitos saberes ribeirinhos invisibilizados que precisam de oportunidade para demonstrar sua produção, comercializar seus produtos e ampliar a difusão desses conhecimentos”, afirma Fernanda Martins, presidenta do ILQF.
Segundo a pesquisadora, o interesse crescente do público pelas letras de barco também demonstra a força da cultura amazônica como setor ligado à economia criativa.
“O paraense sempre teve muito carinho pelas letras de barco. Existe uma admiração muito grande por esse saber, mas isso ainda precisa se refletir em valorização econômica para quem produz. É importante entender o valor do patrimônio imaterial dessas pessoas e respeitar os detentores desse saber”, diz.
“Hoje nosso trabalho é reconhecido”
Morador do Rio Pracuba Grande, no município de São Sebastião da Boa Vista, no Marajó, o abridor de letras Hidaías Freitas afirma que o instituto ajudou a transformar a realidade dos mestres ribeirinhos.
“Eu posso dizer que nós vivíamos aqui no anonimato, sem o nosso trabalho ser reconhecido. E através do Letras, o nosso trabalho está sendo reconhecido. Não só reconhecido, também como traz uma geração de renda para nós”, diz.
“Hoje, a gente já vende um produto lá fora, com preço mais justo. E com isso, a gente já pode colocar um alimento, uma qualidade melhor na mesa da gente”, completa.
A feira também contará com apresentações musicais e exposição de iniciativas voltadas ao fortalecimento de negócios locais em Belém.

Serviço
1ª Feira de Empreendedores Locais de Belém
Agência BB Doca — Avenida Visconde de Souza Franco, 345, bairro Umarizal, em Belém
30 de maio
Programação do Instituto Letras que Flutuam
12h
Canto do Letras — loja e sede do Instituto Letras que Flutuam
Travessa Rui Barbosa, 257, sala 3, Vila Prana, bairro da Campina, em Belém
Instagram: @letrasqueflutuam
Fonte: Assessoria
Por: Gil Sóter






